ao fim da noite
   
 
 

  Histórico

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros sites
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis
 karina abramovich
 Beatriz Bajo
 Céline
 Richard Brautigan
 tom waits
 nelson magalhães filho
 glauco mattoso
 Ricardo Miyake
 juliana
 fabiana vajman
 nilto maciel
 val freitas
 tavinho paes
 literatura sem fronteiras




 

 
 

aos navegadores do fim a mensagem na garrafa é que o meu monitor velho de guerra já era, explodiu e ficou saindo fumacinha na madrugada fria. ficarei, portanto, por falta exclusiva da dona sacana grana sem publicar nada por um tempo mais longo que o habitual. mas eu volto do fundo quando a maré encher, creia. 



Escrito por jorge mendes às 13h23
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

sobre o amargo do beijo

 

quando você pensar em mim, por favor, não grite

 

quando acaba o amor, viramos pedra. eis aí a forma mais apurada do silêncio

bataille

 

quando morri pela primeira vez me levaram todos os kafka, as chuvas de maio e as canções do tom waits (por ignorância ou piedade deixaram morte a crédito do céline, um entardecer em canoa quebrada e blue girl do lô borges), normal. foi também no dia que morri pela primeira vez - um domingo expelindo sol agridoce por todos os lados - que descobri as 1001 utilidades do medo e dos destilados em geral.

 

depois algumas sereias cantaram no meu ouvido o velho hino do amor aos pedaços.

 

então sobrevivi sobrenadando no medo. aprendi a perder. verdade: a vida é dura quando não se tem todas as peças funcionando dentro da cabeça. fiz a minha parte, contudo.

 

vez ou outra me jogavam um osso.

 

quer dizer, a garota parecia mesmo de porcelana. um bibelôzinho século 15 sobre o piano. logo, precisei de alguma filosofia uspiana de porta de banheiro da fefeleche pra convencer a gracinha a ir devagar com o que estava levando à boca. “passe a língua pela glande!” (os termos precisavam ser rigorosamente científicos. se eu dissesse cabeça do pau, a cinderela poderia ficar chocada), “isso, não morda!”, “beleza!”, eu indicava a operação e tentava dar um ritmo na coisa.

 

assim, quando gozei no oceano profundo dela (e é sempre frio depois do gozo, creia), não cheguei a quebrar nada por dentro. também não lembro de estrelas selvagens nem de gritos e sussurros lúbricos na ventania. tenho vivo apenas o sabor voador dos lábios da bucetinha em chamas. é o suficiente.

 

veja, eu já era um idiota então. recitava neruda diante do espelho. batia punheta ouvindo pink floyd. queria ser eu mesmo, o palhação aqui.

o plano era encontrar uma identidade plausível para os meus atos e a boneca de porcelana possuía alguns passaportes falsos: nariz aquilino voltado pru céu, boquinha anos 20, um pouco de loucura e dor, coisas assim, e isso poderia facilitar minha transição. me fodi, óbvio.

 

primeiro porque não existe identidade, transição, a porra. segundo porque quebrei sim alguma coisa por dentro (e isso só fui saber quando já era tarde demais, como sempre). na verdade, não foi uma quebra: foi um talho. um corte grave naquela região sombria que fica entre a minha cabeça e a sordidez do mundo.

 

sangrei por um tempo, portanto.

 

isto é, eu não estava feliz, esperançoso, malhado, confiante, etc, etc. mas estava morto e isso era seguro. um sistema. algo repetitivo e rotineiro pra se agarrar e ficar girando. consegui dar umas voltas na geringonça. o mecanismo não era complicado. era só sentar e esperar apodrecer. foi o que fiz.

 

com isso, nenhum caos ao desejar bom-dia aos vermes da manhã seguinte. tranqüilidade total no manejo dos talheres (saladas e nenhum envolvimento com a faca, no quilo). um quê de segurança e sedução na sala com as visitas e em cada passo dentro da claridade fria.

 

tudo ok com os travesseiros.

 

depois, fiquei boiando. à deriva. rolando pesado até bater no fundo, até o inevitável mergulho de volta ao bloco de gelo.

 

sendo assim, como um último pedido de silêncio e pedra, por essas e outras, quando você pensar em mim, por favor, não grite.



Escrito por jorge mendes às 03h54
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

do corpo-prótese

 

já não há mais corpo. apenas próteses.

a chamada natureza humana desencantou

e é agora só mais um objeto exposto na vitrine

foucault

 

 

o telefone é um objeto do medo. assim como as cortinas, dentro da noite imóvel, são almas penadas que gritam assassinando estrelas.

 

tapetes vampirizam o sol.

 

calendários são túmulos verticais com exuberantes paisagens mórbidas. espelhos de penteadeiras são desejos congelados há dois mil anos antes e há muito desespero e outono danificado nas cadeiras, almofadas e nos trincos das portas.

 

paredes apóiam o teto. tetos tampam o céu.

 

mesinhas de cabeceira transformam sonhos em pó e é por isso que a lua e o fundo do mar não têm nada a ver com as fronhas e os travesseiros.

 

talheres (facas, garfos e mulheres, sobretudo) desejam meu sangue.

 

sofás e janelas e motores a diesel não flutuam mas rangem os dentes.

 

nos dentes aparelhos ortopédicos sorriem cínicos arames farpados.

 

uma morte lenta por obesidade mórbida são todos os chinelos.

 

fones de ouvido apagam o silêncio.

 

gavetas do armário embutido são barcos fantasmas cuja tripulação se embriagou de sereias, pássaros e uísque vagabundo, inutilmente.

 

controles-remotos levam ao onanismo.

 

bibelôs nas estantes são viúvas rancorosas. porta-retratos, relógios de cozinha, mesinhas de centro e sapateiras corroem os ossos, embranquecem os cabelos, causam azia.

 

espíritos malignos com halitose são todos os copos e as toalhas de mesa acumulam migalhas, apodrecem as manhãs.

 

camas e abajures são simplesmente assassinos.

 

colheres e piercings são meninas anoréticas que não produzem luz nem calor. eletrônicos em geral mastigam magnéticas imagens pornográficas enquanto celulares, micros e laptops se alimentam de velocidade estática e ódio.

 

óculos criam fungos e frios desertos panorâmicos.

 

mesas são mulheres católicas.

 

as fruteiras, as gaiolas, os xaxins e os quadros nas paredes são prisões onde cabelos e asas são tingidos de sépia e horror.

 

gargantas sem grito e fúria são as luvas, os sapatos e a louça da sala de jantar.

 

“cabeça pra usar boné.”

 

então, dentro do quarto, sob as águas, na esquina ou na curva da estrada nenhum corpo, porque todo corpo se quebra, se divide, pede abrigo e se dissolve nas sombras.

 

e luzes acessas não curam.

 

cocaína e todo gozo só aliviam segundos.

 

adeus, céu azul.

 



Escrito por jorge mendes às 23h19
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

jazz para os intranqüilos
 
não espelho

 

não quero amar ninguém

com você por dentro.

 

algumas palavras cruas

ainda me doem as cáries

e os comprimidos vermelhos

da lua de fogo

foram retirados do mercado.

 

ficaram os caquinhos de estrelas

balbuciando versos quebrados

dentro da imagem da noite aflita

 

esse medo.

 

(todos sabem que perdi feio

logo no primeiro páreo

então não me diga nada

que possua asas).

 

apenas beberei cerveja choca

e fumarei filtros brancos

quando tudo ficar entre as quatro paredes

e só nós dois.

 

- claro que posso ser de gelo e não derreter.

 

então pousarei minhas mãos sem memória

no crespo dos cabelos

e farei chover

apagando o tempo.

 

serei um pouco de cada um de mim

e você poderá escolher o pedaço mais doce.

 

(agora que já não quero paz nenhuma

você pode rasgar todos os planos da eterna luz).

 

haverá sim no duplo negativo

de você e eu

essa tristeza vítrea

diante dos meus pensamentos

de homem líquido secando ao sol

 

essa certeza clara na sombra refletida

que não amarei ninguém

com você por dentro.

 



Escrito por jorge mendes às 00h54
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

sobre o amargo do beijo

 

você não conhece meus óculos escuros

 

o amor se não ofusca os olhos, dilata a escuridão

cioram

 

sabe, menina feia, o sol do meio dia sempre foi um palhaço assassino comigo. daí esse inverno rigoroso nos olhos, a fúria das esquinas, a solidão dos becos. daí os óculos escuros, menina feia.

 

então, menina feia, não chega ser completamente injusto dizer que você não será minha adorável putinha e nem eu o seu encantado sapinho.

 

o negócio, menina feia, é que busco uns sonhos da pesada daquele lado infernal da cabeça. um incêndio abrupto na garoa fria, um calor assim. portanto, menina feia, por pura perversidade, engano as estrelas da hora sublime. decepciono por prazer e fogo aflito deuses e demônios.

 

estas mãos cavam buracos escuros na claridade das manhãs, você sabe.

 

tenho nada, menina feia. só desespero e horror. sim: pulo do alto pra sentir o gosto do sangue no céu da boca. você, porém, prefere brincar de esconde-esconde, cabra-cega. quer fazer da cidade em ruínas sua casa de bonecas.

 

então foda-se, menina feia.

 

escuta, menina feia, tem tudo pra dar errado. tenho hábitos de vôos suicidas. meu poema de concreto voador grita na madrugada anêmica dos heróis acrilíricos e o inferno é o lugar mais próximo do paraíso onde posso chegar. estou dizendo, menina feia, que meu futuro não é brilhante. meus olhos não são brilhantes. meus dentes não são brilhantes. a cabeça do meu pau não é brilhante. nada em mim brilha ou quer estéril luz, menina feia.

 

entenda, menina feia, os cães me farejam o sangue porque desconhecem o nome do medo (e não é porque sou canceriano que a lua vai me fazer de otário, sem chances). ademais, caminho devagar pela escuridão porque tenho febre e dores que causam rupturas. meu amor, aliás, não é relâmpago insípido nem asséptico rosa. antes é azul cortante, nuvem selvagem, osso elétrico, verbo sangrando o ar.

 

não é pálida nem fóssil jardim minha palavra no vento voraz, menina feia.

 

por outro lado, menina feia, você sabe que perdi na rodada do SEJA CANALHA SORRINDO (prometo ganhar na roleta russa, creia), meus navios e arco-íris naufragaram na tarde dos ratos e, contudo, menina feia, - e isso nem eu e nem você entendemos direito -  entro no oxidável mundo das aparências de peito aberto e sigo respirando pássaros mortos nos ambientes neutros, na boa.

 

assim sendo, menina feia, sinceramente, era pra ter entrado de corpo e alma no fogo. era pra ter se aberto e se entregado e chupado gostoso. era pra ter caído em queda livre, ter virado ave do paraíso, menina feia. você não quis ou não conseguiu. fez cu doce. estacionou na beirinha do abismo e ficou ali olhando a paisagem cinza sem  saber que a luz é indolor mas que a claridade cega, amor.



Escrito por jorge mendes às 01h14
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

os poemas do livro jazz para os intranqüilos foram escritos sob chuva ácida, fumaça verde, neblina e poeira elétrica. poemas escritos em botecos suspeitos, em quartinhos clandestinos do crusp, na madrugada do medo. poemas que foram até o inferno e que agora estão aqui.

 

 

jazz para os intranqüilos

 

 

aqueles caras da década de 70

viraram flores finalmente.

são agora flores do mofo

e descansam em paz

nos cemitérios das bibliotecas públicas.

 

enquanto isso a garota branca

olha para os seios murchos

e senta-se ao sol da segunda-feira

pra folhear sua revista de moda

e assassinatos gentis.

 

“vamos fazer compras, meu bem?”

“oh!, é claro amor!”

e é com isso que os sonhos

vão virando economia doméstica,

estrelas empalhadas no fundo dos olhos.

 

confesso que foi difícil

aprender a sangrar sozinho.

também não foi nada fácil

ver os amigos virarem idiotas de supermercado.

mas não vou chorar agora que trinquei os dentes:

não quero brincar de medo no escuro e nem tentar fugir.

 

eu sei: é uma velha estória

amanhecer vivo todos os dias.

o sol frio nos pés, essa palavra úmida,

esse par de olhos embolorados

já não podem mais alcançar a estrela

e aqueles caras da década de 70

tentaram e conseguiram embarcar

pra nave do fim do mundo.

 

lisérgicos, aqueles caras da década de 70

deixaram tudo ácido

e os trocadilhos são por conta da casa.

 

então venha consertar meus dentes podres, garota de aquário!

não há medo agora que estamos seguros no refrigerador.

aqueles caras da década de 70

estão finalmente mortos com flores nos dentes

e o domingo vai ser de chuva

com poucas possibilidades de sol.



Escrito por jorge mendes às 15h19
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

sobre o amargo do beijo

 

ela me ama

 

se ela falar que te ama, fuja correndo e não olhe para trás

céline

 

não pensei na morte quando ela disse que me amava. pensei num certo tom de azul logo após o amanhecer, em acordes dissonantes de pianos cheirando a outono, em elétricas pedras de sal e neblina.

 

ponderei, no entanto, que talvez ela só estivesse jogando uma doce roleta-russa com meus nervos (“par eu ganho. ímpar você perde”, ela propôs nua no fogo. fui na dela, claro)  ou querendo meu corpo pra um banquete de sangue e esperma ao luar, vai saber.

 

depois não pensei mais. deixei que ela me amasse simplesmente.

 

então surgiram os artefatos da guerra. as longas madrugadas das estrelas assassinas. o nome do medo preso entre dentes.

 

o negócio é que ela possuía todos os bês do jeitinho que eu mais gostava. isto é, boca voraz (incluindo aí o delírio e a febre da língua e dentinho da frente saltado), bundinha meia-lua como uma bola profissional de futebol de salão e bucetinha subaquática de lábios voadores. delícia.

 

de brinde, seios tímidos de pêra e nuvens, coxas roliças de dançarina de jazz e o caos dos cabelos curtos.

 

- no olhar um verde de piscina com caquinhos de vidro.

 

como não se foder bonito?

 

eu dizia: “você é toda do jeitinho que eu mais gosto” e ela não esboçava reação. apenas dizia que me amava e continuava fixa no branco das paredes.

 

perversa profissional, a putinha.

 

então, quando eu saia pra tomar umas, andar por aí, roubava azaléias e ventos pra ela. na chuva escrevi uns blues amargos pra voz de veludo azul dela (e o céu como que coberto de celofane e o mar cagando pru meu desespero), hai-kais leminskianos pra menstruação, pentelhos, pés e as mãozinhas abismais (os dedinhos dela dentro da noite como pássaros abatido em pleno vôo). mas foi só quando as canções dos sertanejos começaram a fazer sentido é que comecei a ficar preocupado.

 

voltei a pensar.

 

assim, naquele corredor do prédio, as 4:50 da madrugada, depois da nossa voltinha pelo inferno, com o peito saturado de álcool e dores que nunca vão passar, encostei ela no frio da parede, mergulhei no verde de sua piscina de cacos de vidro e perguntei num fôlego só: “escuta, que porra de amor é esse que você sente por mim, afinal?”, aí ela chorou durante todo o mês de julho.

 

em agosto fez frio pra cacete e em setembro ela me deu o primeiro e último e derradeiro golpe de morte.

 

ela disse: “o amor que sinto por você acabou. agora estamos livres!”, e me beijou exatamente como se beija um morto, isto é, com respeito, admiração e repugnância.

 

em seguida, sem olhar pra trás, ela bateu asas em busca de um outro amor otário pra amar.

 

“filhadaputa!”, pensei enquanto ela se afastava.



Escrito por jorge mendes às 03h22
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

sobre o amargo do beijo

 

 

ainda

 

 

não faço mais que tocar a periferia de sua existência. mas um estranho orgulho nos impele não apenas possuir o outro  mas a forçar o seu segredo, não apenas a lhe ser caro mas a lhe ser fatal.
baudrillard

 

 

 

ela não me conhece. ela não sabe nada de mim. para ela eu não existo, ainda. então ela acende o cigarro e fica olhando o branco das paredes. pinta as unhas com esmalte neutro (na lua dos olhos um velho blues). foge da chuva e chora desesperadamente durante o banho. ela não entende, há algo dentro dela que não incendeia, que pulsa mudo, sem nome, sem rosto, numa febre, uma espécie de corte por dentro e esse algo sou eu. mas ela não sabe, ainda.

 

daí a madrugada fria com vodca e estrelas amargas. o papo grandiloqüente dos heróis da tv e dos barzinhos subterrâneos. ela, inclusive, é o “amorzinho da vida” de um dos heróis. o cara, diga-se, é um deus do undeground: barbicha mangue beat, olhar lânguido de anjo caído e frases de nietzsche, bukowski, kerouak e fante engatilhadas, tudo no lugar. ele diz: “você é a minha camila e eu o seu bandini. vem cá, chupa gostoso, boneca!”, e ela vai e chupa. depois, quando o anjo decaído bate asas, ela pensa que não precisava ele ter acendido a porra daquele cigarro e nem ter posto aquele sorriso cretino na cara logo após a trepada. ela pensa nisso com culpa. afinal eles se amam, tanto.

 

em seguida, é o silêncio. a sensação de morte. a vontade de gritar quebrando tudo. ela não entende isso. é algo que a excede. qualquer coisa separada dela que a faz mergulhar no segredo e absorve o que a rodeia. ela se assusta. desconhece essa força contrária que a puxa pru fundo. esse gosto de sangue aéreo no céu da boca. esse descontrole que a faz mandar tomar no cu todo e qualquer céu azul, o luar sobre a linha do horizonte e as canções a meia-luz do djavan. ela sente medo e pergunta ao espelho do banheiro: “caralho, o que é isso?”, e isso sou eu. mas ela não me conhece. ela não sabe nada de mim. para ela eu não existo, ainda. e é por isso que o espelho do banheiro fica mudo, a encarando com os olhos manchados de rímel como se chorasse lentas lágrimas negras.

 

sem saber como, no entanto, ela consegue ouvir a música das longas avenidas vazias. dentro do quarto escuro seu olho brilha. por isso, ela grita abrindo os braços. quer tentar o vôo pulando do 12o andar. mas uma voz sussurra que ainda não – e há ternura e sal voador nessa voz que é minha e que ela não sabe, ainda –, que sorria pra morte e dance sobre as brasas, por enquanto. então ela fica ouvindo o eco do seu grito ir se perdendo pelas esquinas, becos e quebradas da cidade adormecida. sente a carícia gelada do vento do fim da noite em seu rosto (nessa carícia meus dedos mexem em seu cabelo, delicadamente) e o coração dispara. ela pensa: “não sei nada. não tenho nada. mas algo se movimenta ao meu encontro, que venha então!” e aí ela procura se interessar pelos cadáveres, pelo vinho dos trapaceiros, pelos vermes da manhã seguinte. acaba adormecendo (abraçada aos quatro travesseiros e chorando bem baixinho que é pra ela e nem deus ouvir), sentindo esse espaço em branco, essa falta, esse torpor que ela não decifra e que assusta mas que a deixa elétrica e tonta e pronta pra mim.

 

 “por que?”, ela ainda pergunta antes de apagar de vez e não há resposta.

 

é que ela não me conhece. é que ela não sabe nada de mim. é que pra ela eu não existo, ainda.



Escrito por jorge mendes às 05h12
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

a revista muro publicou concreta, vale conferir porque o texto tá no original.

Escrito por jorge mendes às 02h04
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

crônicas do fim da noite

 

 

doce lâmina

 

a palavra é o modo mais puro e sensível de morrer e fazer morrer
felix guattari

 

 

ocorre o corte. quer dizer, toda palavra primeiro sangra por dentro. depois é o vermelho escorrendo da página em branco. o texto.

 

- conheço os destilados e as frases do último bar aberto, já posso esquecer.

 

desnecessário, porém, ressaltar as palavras desespero e cariótica. basta a extensão fria do fio afiado da língua rabiscando a carne (a pele apenas envelhece ao sol. inútil pergaminho. contra-capa), o brilho úmido da ponta do punhal propondo o único ponto final possível ao corpo, porosa esquizoesferografia do desejo.

 

decerto não se trata de leitura dinâmica com molho rosé para corações voadores & outras miopias dissertativas dos poetinhas com flores no cu. antes é a inapelável solidão dos olhos enclausurados no signo rígido do silêncio. o coração sem explicação nenhuma sussurrando a última estrofe da noite lívida na hora da autopsia semiótica.

 

como uma vírgula bêbada, quem sabe, haja um olhar mais plano sobre a superfície (isso durante a queda), uma possível desmaterialização gestual no espelho do banheiro. então é a frase noutra forma, concretamente pingando, evaporando e sendo absorvida pelas paredes, criando pedras, descendo pelo ralo, não importa.

 

ademais, foda-se o foco narrativo. fica o torpor. a pulsação do talho. queima, é vero. arde. mancha o azulejo e o papel. causa pavor aos críticos ligados ao expressionismo. escorre, todavia.

 

inútil acrescentar lágrimas monossilábicas e/ou fluídos genitais ao quadro. isto é, o amor e outros dejetos não tem nada a ver com a obscura e amarga sentença – escrita com esperma, nuvens e merda – do estúpido e sempre patético coração. ou seja, a vida – essa puta de refrão fácil e rimas sórdidas, verbo biológico – não ruboriza: aborta azuis. cala infinitos. fecha fluxos. esvai-se, e pronto.

 

provavelmente algumas imagens maquínicas cruzaram o espaço. rizomas. um sorriso de mulher saindo do mar (como uma interrogação líquida), algumas frases metonímicas talvez ainda dancem em volta da mesa. nenhum futuro-devir, é certo. de qualquer maneira, não será lírico e nem em forma de meia-lua o traço no pulso. será sim negro e patético e sem retorno o baque. no fim da página, o vácuo.

 

restará a ruptura. o corpo inerte. o riso de escárnio na metáfora grotesca estendida na sombra. depois é a eternidade (um gosto de alfarrábios no céu da boca), um parágrafo queimando dentro da cabeça. a bibliografia do medo. a música parada e a inevitável palavra esquecimento sumindo na neblina.

 

linguagem, é o nome da coisa.

 

vire a página, irmão. 



Escrito por jorge mendes às 02h38
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

sobre o amargo do beijo

 

concreta foi um dos textos premiados do recente concurso mente aberta da revista época, beleza

 

 

concreta

 

você não é ninguém e eu poderia ter sido alguém e o caminho entre nós é o amor

john fante

 

antes de tudo ela é articulada. usa franjinha assimétrica de corte desestruturado. chanelzinho. penugem na nuca e brinquinho de safira nas orelhas (abanadas, as orelhinhas). rosto do kafka tatuado no ombro. seios de maçã portuguesa. ar de menino malcriado. andrógina e fresca. gosto dela assim. uma perversidade, é claro.

fala inglês. lê em alemão. detesta o que escrevo e me chupa gostoso. eu bebo, bebo horrores. vários saaras, o coração.

ela diz: “foda-se você!”, e dou risadas. não queremos ser felizes, é isso. também não trocamos olhares neo-barrocos. não nos chamamos de benzinho e ela jogou o prato de macarrão na minha cara e fiz o nariz dela sangrar. somos quase inimigos. daí nosso beijo de tirar o fôlego.

existe, é fato, o medo fazendo sombra. o futuro bloqueando a visão. tento não pensar sobre isso. ela escreve uns poemas dilacerantes. não somos tristes, contudo. são dois gatos e uma iguana. eu prefiro os biquinhos carnudos.

às vezes mergulhamos no escuro das ruas. ela dança aretha franklin. os otários não tiram o olho. atenções concentradas na bundinha lunar que só eu sei, verdadeiramente, como é doce e selvagem o ritmo que ali vibra. os otários que salivem. como nos versos da canção evitamos qualquer contato com pessoas de temperamento sórdido. logo, gozamos sem culpa.

verdade, ela tentou me ensinar uns movimentos de tai-chi. a coisa não funcionou (me senti pateticamente viado na posição da garça emplumada). então ela me xingou de débil mental e foi tomar banho. fui atrás. ela adora trepar dentro do box, no banho. minhas coxas ficaram fortes assim (o que dói mesmo são as panturrilhas. ela gosta quando digo panturrilhas. fica rindo. repete colocando a pontinha da língua pra fora, pan-tur-ri-lhas. acho esquisito).

somos frágeis. isso nos fortalece 100% antes, durante e depois da queda. isto é, não acreditamos no amor e nem na palavra esperança. temos nojo das expressões relacionamento e afetividade. cultivamos o estranhamento. uma espécie de ternura inflamável. qualquer contato gera combustão instantânea e naufrágio. foda.

por alguma razão que nos escapa (e não queremos em hipótese alguma saber) conseguimos adivinhar um o pensamento do outro. mas não somos cúmplices, isso nunca. por exemplo, na tarde de relâmpagos e trovões ela ficou maluca. lambeu as paredes. quis incendiar o paraiso. em seguida, subimos ao céu.

claro que é ela quem entra com a grana e a pólvora voadora dos pesadelos. eu entro com a fome do medo e a caixa de fósforos.

seria fácil assassiná-la durante o sono, acho. ela diz: “escute, por que você não deixa de ser bunda-mole e acaba logo com isso?” e desvio os olhos. sei que algo se rompeu pra sempre dentro da minha cabeça. ela também sabe e fere por dentro. então nos encaramos. temos um pacto: ela me faz voar e eu a faço ver estrelas de fogo.

não somos mais homem nem mulher nem gente nem bicho, somos inverossímeis.

 



Escrito por jorge mendes às 01h27
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

sobre o amargo do beijo é um livro de contos que ainda estou escrevendo. decidi publicar alguns textos aqui só pra ver o que acontece.

sobre o amargo do beijo

 

"não é preciso me iludir: não houve o beijo, só mais um doce assassinato a sangue frio"
carl solomon

 

no começo foi um jogo de beijos e língua com as palavras hortelã e manhã. uns lances mágicos e terrificantes na melodia.

tudo na velocidade do sangue.

depois você também sonhou comigo dentro da canção (estou febril está noite. vejo sombras deslizando pelas paredes, gritos elétricos povoando o escuro chão, um pouco de dor).

por outro lado, não cheguei mesmo a ser um bom herói nesses draminhas sórdidos que tramaram contra as santíssimas bolas do meu saco (você sabe, de longe, do alto, tudo é limpo. não tenho controle disso). no entanto, você olha pra tv e pensa em mim.

mas não há nada mais pra você aqui comigo.

quer dizer, estou pequeno dentro desse estilo de caixão e o mundo é um brilho ofuscante e você fugiu nessa claridade, entendo.

isto é, você virou plástico, gente morta, um sonho cheio de rancor.

eu procurei dar uns cortes. busquei uma certa levada de bateria dos negros da motown, um clandestino blues.

não sei.

então, esqueça.

 vamos jogar bilhar, beber grandes goles de céu impuro e vodca. falemos das estrelas críticas frankfurtianas que nos assassinaram a inocência e nos fuderam pra sempre. vamos pronunciar pausada e ferozmente o nome de todas as coisas. quem sabe reviver (docemente, agora) o dia em que morremos no mar ou a sensação de aventura e morte dentro do trem.

do horror de tudo isso, contudo, vamos simplesmente nos calar.

você ainda não sabe, mas houve uma colisão entre o mundo e alguns sonhos que eu carregava dentro da cabeça (o cérebro debilitado por destilados, nicotina e nuvens carregadas de desprezo e ódio). a coisa deu merda. agora estou aqui, preso com quatro paredes e um teto. tem a porta e o mundo por detrás, você tem algum plano?

eu tentei o salto. fiz a bossa. armei a queda. afundei feio. na boa.

você, por outro lado, não sabia o que fazer com o desejo e então resolveu morrer de amor.

por mim, tudo bem.

mas quer saber, o fato é que você não soube fazer o serviço comigo, querida. e é preciso que você saiba disso porque você sonhou comigo dentro da canção (e a manhã não amanheceu com hálito de hortelã porra nenhuma) e porque agora preciso me deitar - amanhã amanhecerei morto por mais uma vez -, abraçar o travesseiro e ouvir a canção sem pensar em você.

 

 



Escrito por jorge mendes às 04h12
[] [envie esta mensagem
] []


 

 

publiquei as crônicas do fim da noite por um tempo em algumas revistas eletrônicas. foi legal. a maioria das pessoas detestavam e uns poucos achavam adoravam, tudo certo. com o tempo os editores acabaram com os projetos das revistas ou simplesmente não me convidaram mais pra escrever. tudo certo. eu, bem, eu continuei escrevendo, o que mais posso fazer?

agora resolvi publicar alguns textos das crônicas aqui no blog, a vida é assim.

 

crônicas do fim da noite

narcose

 

"... acabaram se imobilizando em posturas que nada tinham de humanas"
j.g. ballard

 

agora já é tarde e não tenho nenhuma verdade púrpura fazendo padedê na ponta da língua.

(destilados distendem os nervos. aquecem a curva escura do coração).

mas frases curtas e um direto na cara faz ver estrelas?

ouço os bardos mastigando merda perfumada. aprendizes tupiniquins subnutridos das fleurs du mal. bukowskizinhos desfilando pelo mármore dos shoppings com celulares na cintura e 10% de desconto daqui a trinta dias. animais em ereção. todos muito classe-média com seu odiozinho de fim de semana e disk-pizza. olhares de molho rosé com catupiry. vitrines vivas e a reprodutibilidade da obra de arte balançando a bunda.

então fico com essa sensação que todos estão se dando bem, exceto o idiota aqui.

o fato é que tudo em volta existe e não faço mais a menor questão de saber o que estou fazendo no meio disso tudo (algo a ver com o término da cota do meu interesse pelo mundo, digamos).

o resto é corrupção com o beijo de judas na testa e suaves prestações. frases bonitas modernas num colorido sutil. a mumificação diária em frente a tv. os planos do planalto e a miséria em verso e prosa do mano com sua calça de campanha e tênis de marca.

claro, é sempre o lado que me destrói que acaba vencendo. sou como o fernando pessoa no poema em linha reta, isto é, com preguiça até para tomar banho, rodeado de campeões em tudo e vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

de qualquer maneira são só detritos líricos para virgens em menopausa em cristo. cadáveres de bonecas fashion, os canibais na sala de jantar e no meio dessa bananas só meu ódio não é podre.

 o fato é que a madrugada me conhece. além do mais, as esquinas são todas umas vagabundas de pé debaixo do poste e no próximo beco somos eu e o medo, creia.

sei que ninguém vai sair ileso desse naufrágio no gelo. estamos na rede. peixinhos mortos no aquário. venenos frios no café da manhã. um papo cabeça para depois da foda apenas física e esperma para que te quero, baby.

agora a chuva sussurrando obscenidades ao longo das avenidas. o plástico daqueles dentes sorrindo (e não adianta vir arreganhando os dentes para mim porque sei que isso não é um sorriso, já cantava o itamar assumpção). o projeto-suicídio para depois das cinco e as estrelas - essas putas azuis - caindo do alto, em queda livre, bem no centro do lixo.


entäo, observo a coisa. tomo a saideira. esqueço o troco. entro na neblina.

sigo no detrito, irmão.

 



Escrito por jorge mendes às 04h06
[] [envie esta mensagem
] []


 

 
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]