ao fim da noite
   
 
 

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sobre o amargo do beijo é um livro de contos que ainda estou escrevendo. decidi publicar alguns textos aqui só pra ver o que acontece.

sobre o amargo do beijo

 

"não é preciso me iludir: não houve o beijo, só mais um doce assassinato a sangue frio"
carl solomon

 

no começo foi um jogo de beijos e língua com as palavras hortelã e manhã. uns lances mágicos e terrificantes na melodia.

tudo na velocidade do sangue.

depois você também sonhou comigo dentro da canção (estou febril está noite. vejo sombras deslizando pelas paredes, gritos elétricos povoando o escuro chão, um pouco de dor).

por outro lado, não cheguei mesmo a ser um bom herói nesses draminhas sórdidos que tramaram contra as santíssimas bolas do meu saco (você sabe, de longe, do alto, tudo é limpo. não tenho controle disso). no entanto, você olha pra tv e pensa em mim.

mas não há nada mais pra você aqui comigo.

quer dizer, estou pequeno dentro desse estilo de caixão e o mundo é um brilho ofuscante e você fugiu nessa claridade, entendo.

isto é, você virou plástico, gente morta, um sonho cheio de rancor.

eu procurei dar uns cortes. busquei uma certa levada de bateria dos negros da motown, um clandestino blues.

não sei.

então, esqueça.

 vamos jogar bilhar, beber grandes goles de céu impuro e vodca. falemos das estrelas críticas frankfurtianas que nos assassinaram a inocência e nos fuderam pra sempre. vamos pronunciar pausada e ferozmente o nome de todas as coisas. quem sabe reviver (docemente, agora) o dia em que morremos no mar ou a sensação de aventura e morte dentro do trem.

do horror de tudo isso, contudo, vamos simplesmente nos calar.

você ainda não sabe, mas houve uma colisão entre o mundo e alguns sonhos que eu carregava dentro da cabeça (o cérebro debilitado por destilados, nicotina e nuvens carregadas de desprezo e ódio). a coisa deu merda. agora estou aqui, preso com quatro paredes e um teto. tem a porta e o mundo por detrás, você tem algum plano?

eu tentei o salto. fiz a bossa. armei a queda. afundei feio. na boa.

você, por outro lado, não sabia o que fazer com o desejo e então resolveu morrer de amor.

por mim, tudo bem.

mas quer saber, o fato é que você não soube fazer o serviço comigo, querida. e é preciso que você saiba disso porque você sonhou comigo dentro da canção (e a manhã não amanheceu com hálito de hortelã porra nenhuma) e porque agora preciso me deitar - amanhã amanhecerei morto por mais uma vez -, abraçar o travesseiro e ouvir a canção sem pensar em você.

 

 



Escrito por jorge mendes às 04h12
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publiquei as crônicas do fim da noite por um tempo em algumas revistas eletrônicas. foi legal. a maioria das pessoas detestavam e uns poucos achavam adoravam, tudo certo. com o tempo os editores acabaram com os projetos das revistas ou simplesmente não me convidaram mais pra escrever. tudo certo. eu, bem, eu continuei escrevendo, o que mais posso fazer?

agora resolvi publicar alguns textos das crônicas aqui no blog, a vida é assim.

 

crônicas do fim da noite

narcose

 

"... acabaram se imobilizando em posturas que nada tinham de humanas"
j.g. ballard

 

agora já é tarde e não tenho nenhuma verdade púrpura fazendo padedê na ponta da língua.

(destilados distendem os nervos. aquecem a curva escura do coração).

mas frases curtas e um direto na cara faz ver estrelas?

ouço os bardos mastigando merda perfumada. aprendizes tupiniquins subnutridos das fleurs du mal. bukowskizinhos desfilando pelo mármore dos shoppings com celulares na cintura e 10% de desconto daqui a trinta dias. animais em ereção. todos muito classe-média com seu odiozinho de fim de semana e disk-pizza. olhares de molho rosé com catupiry. vitrines vivas e a reprodutibilidade da obra de arte balançando a bunda.

então fico com essa sensação que todos estão se dando bem, exceto o idiota aqui.

o fato é que tudo em volta existe e não faço mais a menor questão de saber o que estou fazendo no meio disso tudo (algo a ver com o término da cota do meu interesse pelo mundo, digamos).

o resto é corrupção com o beijo de judas na testa e suaves prestações. frases bonitas modernas num colorido sutil. a mumificação diária em frente a tv. os planos do planalto e a miséria em verso e prosa do mano com sua calça de campanha e tênis de marca.

claro, é sempre o lado que me destrói que acaba vencendo. sou como o fernando pessoa no poema em linha reta, isto é, com preguiça até para tomar banho, rodeado de campeões em tudo e vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

de qualquer maneira são só detritos líricos para virgens em menopausa em cristo. cadáveres de bonecas fashion, os canibais na sala de jantar e no meio dessa bananas só meu ódio não é podre.

 o fato é que a madrugada me conhece. além do mais, as esquinas são todas umas vagabundas de pé debaixo do poste e no próximo beco somos eu e o medo, creia.

sei que ninguém vai sair ileso desse naufrágio no gelo. estamos na rede. peixinhos mortos no aquário. venenos frios no café da manhã. um papo cabeça para depois da foda apenas física e esperma para que te quero, baby.

agora a chuva sussurrando obscenidades ao longo das avenidas. o plástico daqueles dentes sorrindo (e não adianta vir arreganhando os dentes para mim porque sei que isso não é um sorriso, já cantava o itamar assumpção). o projeto-suicídio para depois das cinco e as estrelas - essas putas azuis - caindo do alto, em queda livre, bem no centro do lixo.


entäo, observo a coisa. tomo a saideira. esqueço o troco. entro na neblina.

sigo no detrito, irmão.

 



Escrito por jorge mendes às 04h06
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