ao fim da noite
   
 
 

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sobre o amargo do beijo

 

concreta foi um dos textos premiados do recente concurso mente aberta da revista época, beleza

 

 

concreta

 

você não é ninguém e eu poderia ter sido alguém e o caminho entre nós é o amor

john fante

 

antes de tudo ela é articulada. usa franjinha assimétrica de corte desestruturado. chanelzinho. penugem na nuca e brinquinho de safira nas orelhas (abanadas, as orelhinhas). rosto do kafka tatuado no ombro. seios de maçã portuguesa. ar de menino malcriado. andrógina e fresca. gosto dela assim. uma perversidade, é claro.

fala inglês. lê em alemão. detesta o que escrevo e me chupa gostoso. eu bebo, bebo horrores. vários saaras, o coração.

ela diz: “foda-se você!”, e dou risadas. não queremos ser felizes, é isso. também não trocamos olhares neo-barrocos. não nos chamamos de benzinho e ela jogou o prato de macarrão na minha cara e fiz o nariz dela sangrar. somos quase inimigos. daí nosso beijo de tirar o fôlego.

existe, é fato, o medo fazendo sombra. o futuro bloqueando a visão. tento não pensar sobre isso. ela escreve uns poemas dilacerantes. não somos tristes, contudo. são dois gatos e uma iguana. eu prefiro os biquinhos carnudos.

às vezes mergulhamos no escuro das ruas. ela dança aretha franklin. os otários não tiram o olho. atenções concentradas na bundinha lunar que só eu sei, verdadeiramente, como é doce e selvagem o ritmo que ali vibra. os otários que salivem. como nos versos da canção evitamos qualquer contato com pessoas de temperamento sórdido. logo, gozamos sem culpa.

verdade, ela tentou me ensinar uns movimentos de tai-chi. a coisa não funcionou (me senti pateticamente viado na posição da garça emplumada). então ela me xingou de débil mental e foi tomar banho. fui atrás. ela adora trepar dentro do box, no banho. minhas coxas ficaram fortes assim (o que dói mesmo são as panturrilhas. ela gosta quando digo panturrilhas. fica rindo. repete colocando a pontinha da língua pra fora, pan-tur-ri-lhas. acho esquisito).

somos frágeis. isso nos fortalece 100% antes, durante e depois da queda. isto é, não acreditamos no amor e nem na palavra esperança. temos nojo das expressões relacionamento e afetividade. cultivamos o estranhamento. uma espécie de ternura inflamável. qualquer contato gera combustão instantânea e naufrágio. foda.

por alguma razão que nos escapa (e não queremos em hipótese alguma saber) conseguimos adivinhar um o pensamento do outro. mas não somos cúmplices, isso nunca. por exemplo, na tarde de relâmpagos e trovões ela ficou maluca. lambeu as paredes. quis incendiar o paraiso. em seguida, subimos ao céu.

claro que é ela quem entra com a grana e a pólvora voadora dos pesadelos. eu entro com a fome do medo e a caixa de fósforos.

seria fácil assassiná-la durante o sono, acho. ela diz: “escute, por que você não deixa de ser bunda-mole e acaba logo com isso?” e desvio os olhos. sei que algo se rompeu pra sempre dentro da minha cabeça. ela também sabe e fere por dentro. então nos encaramos. temos um pacto: ela me faz voar e eu a faço ver estrelas de fogo.

não somos mais homem nem mulher nem gente nem bicho, somos inverossímeis.

 



Escrito por jorge mendes às 01h27
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