sobre o amargo do beijo
ainda
não faço mais que tocar a periferia de sua existência. mas um estranho orgulho nos impele não apenas possuir o outro mas a forçar o seu segredo, não apenas a lhe ser caro mas a lhe ser fatal. baudrillard
ela não me conhece. ela não sabe nada de mim. para ela eu não existo, ainda. então ela acende o cigarro e fica olhando o branco das paredes. pinta as unhas com esmalte neutro (na lua dos olhos um velho blues). foge da chuva e chora desesperadamente durante o banho. ela não entende, há algo dentro dela que não incendeia, que pulsa mudo, sem nome, sem rosto, numa febre, uma espécie de corte por dentro e esse algo sou eu. mas ela não sabe, ainda.
daí a madrugada fria com vodca e estrelas amargas. o papo grandiloqüente dos heróis da tv e dos barzinhos subterrâneos. ela, inclusive, é o “amorzinho da vida” de um dos heróis. o cara, diga-se, é um deus do undeground: barbicha mangue beat, olhar lânguido de anjo caído e frases de nietzsche, bukowski, kerouak e fante engatilhadas, tudo no lugar. ele diz: “você é a minha camila e eu o seu bandini. vem cá, chupa gostoso, boneca!”, e ela vai e chupa. depois, quando o anjo decaído bate asas, ela pensa que não precisava ele ter acendido a porra daquele cigarro e nem ter posto aquele sorriso cretino na cara logo após a trepada. ela pensa nisso com culpa. afinal eles se amam, tanto.

em seguida, é o silêncio. a sensação de morte. a vontade de gritar quebrando tudo. ela não entende isso. é algo que a excede. qualquer coisa separada dela que a faz mergulhar no segredo e absorve o que a rodeia. ela se assusta. desconhece essa força contrária que a puxa pru fundo. esse gosto de sangue aéreo no céu da boca. esse descontrole que a faz mandar tomar no cu todo e qualquer céu azul, o luar sobre a linha do horizonte e as canções a meia-luz do djavan. ela sente medo e pergunta ao espelho do banheiro: “caralho, o que é isso?”, e isso sou eu. mas ela não me conhece. ela não sabe nada de mim. para ela eu não existo, ainda. e é por isso que o espelho do banheiro fica mudo, a encarando com os olhos manchados de rímel como se chorasse lentas lágrimas negras.
sem saber como, no entanto, ela consegue ouvir a música das longas avenidas vazias. dentro do quarto escuro seu olho brilha. por isso, ela grita abrindo os braços. quer tentar o vôo pulando do 12o andar. mas uma voz sussurra que ainda não – e há ternura e sal voador nessa voz que é minha e que ela não sabe, ainda –, que sorria pra morte e dance sobre as brasas, por enquanto. então ela fica ouvindo o eco do seu grito ir se perdendo pelas esquinas, becos e quebradas da cidade adormecida. sente a carícia gelada do vento do fim da noite em seu rosto (nessa carícia meus dedos mexem em seu cabelo, delicadamente) e o coração dispara. ela pensa: “não sei nada. não tenho nada. mas algo se movimenta ao meu encontro, que venha então!” e aí ela procura se interessar pelos cadáveres, pelo vinho dos trapaceiros, pelos vermes da manhã seguinte. acaba adormecendo (abraçada aos quatro travesseiros e chorando bem baixinho que é pra ela e nem deus ouvir), sentindo esse espaço em branco, essa falta, esse torpor que ela não decifra e que assusta mas que a deixa elétrica e tonta e pronta pra mim.
“por que?”, ela ainda pergunta antes de apagar de vez e não há resposta.
é que ela não me conhece. é que ela não sabe nada de mim. é que pra ela eu não existo, ainda.
Escrito por jorge mendes às 05h12
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