sobre o amargo do beijo
ela me ama
se ela falar que te ama, fuja correndo e não olhe para trás
céline
não pensei na morte quando ela disse que me amava. pensei num certo tom de azul logo após o amanhecer, em acordes dissonantes de pianos cheirando a outono, em elétricas pedras de sal e neblina.
ponderei, no entanto, que talvez ela só estivesse jogando uma doce roleta-russa com meus nervos (“par eu ganho. ímpar você perde”, ela propôs nua no fogo. fui na dela, claro) ou querendo meu corpo pra um banquete de sangue e esperma ao luar, vai saber.
depois não pensei mais. deixei que ela me amasse simplesmente.
então surgiram os artefatos da guerra. as longas madrugadas das estrelas assassinas. o nome do medo preso entre dentes.
o negócio é que ela possuía todos os bês do jeitinho que eu mais gostava. isto é, boca voraz (incluindo aí o delírio e a febre da língua e dentinho da frente saltado), bundinha meia-lua como uma bola profissional de futebol de salão e bucetinha subaquática de lábios voadores. delícia.
de brinde, seios tímidos de pêra e nuvens, coxas roliças de dançarina de jazz e o caos dos cabelos curtos.
- no olhar um verde de piscina com caquinhos de vidro.
como não se foder bonito?

eu dizia: “você é toda do jeitinho que eu mais gosto” e ela não esboçava reação. apenas dizia que me amava e continuava fixa no branco das paredes.
perversa profissional, a putinha.
então, quando eu saia pra tomar umas, andar por aí, roubava azaléias e ventos pra ela. na chuva escrevi uns blues amargos pra voz de veludo azul dela (e o céu como que coberto de celofane e o mar cagando pru meu desespero), hai-kais leminskianos pra menstruação, pentelhos, pés e as mãozinhas abismais (os dedinhos dela dentro da noite como pássaros abatido em pleno vôo). mas foi só quando as canções dos sertanejos começaram a fazer sentido é que comecei a ficar preocupado.
voltei a pensar.
assim, naquele corredor do prédio, as 4:50 da madrugada, depois da nossa voltinha pelo inferno, com o peito saturado de álcool e dores que nunca vão passar, encostei ela no frio da parede, mergulhei no verde de sua piscina de cacos de vidro e perguntei num fôlego só: “escuta, que porra de amor é esse que você sente por mim, afinal?”, aí ela chorou durante todo o mês de julho.
em agosto fez frio pra cacete e em setembro ela me deu o primeiro e último e derradeiro golpe de morte.
ela disse: “o amor que sinto por você acabou. agora estamos livres!”, e me beijou exatamente como se beija um morto, isto é, com respeito, admiração e repugnância.
em seguida, sem olhar pra trás, ela bateu asas em busca de um outro amor otário pra amar.
“filhadaputa!”, pensei enquanto ela se afastava.