os poemas do livro jazz para os intranqüilos foram escritos sob chuva ácida, fumaça verde, neblina e poeira elétrica. poemas escritos em botecos suspeitos, em quartinhos clandestinos do crusp, na madrugada do medo. poemas que foram até o inferno e que agora estão aqui.

jazz para os intranqüilos
aqueles caras da década de 70
viraram flores finalmente.
são agora flores do mofo
e descansam em paz
nos cemitérios das bibliotecas públicas.
enquanto isso a garota branca
olha para os seios murchos
e senta-se ao sol da segunda-feira
pra folhear sua revista de moda
e assassinatos gentis.
“vamos fazer compras, meu bem?”
“oh!, é claro amor!”
e é com isso que os sonhos
vão virando economia doméstica,
estrelas empalhadas no fundo dos olhos.
confesso que foi difícil
aprender a sangrar sozinho.
também não foi nada fácil
ver os amigos virarem idiotas de supermercado.
mas não vou chorar agora que trinquei os dentes:
não quero brincar de medo no escuro e nem tentar fugir.
eu sei: é uma velha estória
amanhecer vivo todos os dias.
o sol frio nos pés, essa palavra úmida,
esse par de olhos embolorados
já não podem mais alcançar a estrela
e aqueles caras da década de 70
tentaram e conseguiram embarcar
pra nave do fim do mundo.
lisérgicos, aqueles caras da década de 70
deixaram tudo ácido
e os trocadilhos são por conta da casa.
então venha consertar meus dentes podres, garota de aquário!
não há medo agora que estamos seguros no refrigerador.
aqueles caras da década de 70
estão finalmente mortos com flores nos dentes
e o domingo vai ser de chuva
com poucas possibilidades de sol.
Escrito por jorge mendes às 15h19
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