ao fim da noite
   
 
 

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sobre o amargo do beijo

 

você não conhece meus óculos escuros

 

o amor se não ofusca os olhos, dilata a escuridão

cioram

 

sabe, menina feia, o sol do meio dia sempre foi um palhaço assassino comigo. daí esse inverno rigoroso nos olhos, a fúria das esquinas, a solidão dos becos. daí os óculos escuros, menina feia.

 

então, menina feia, não chega ser completamente injusto dizer que você não será minha adorável putinha e nem eu o seu encantado sapinho.

 

o negócio, menina feia, é que busco uns sonhos da pesada daquele lado infernal da cabeça. um incêndio abrupto na garoa fria, um calor assim. portanto, menina feia, por pura perversidade, engano as estrelas da hora sublime. decepciono por prazer e fogo aflito deuses e demônios.

 

estas mãos cavam buracos escuros na claridade das manhãs, você sabe.

 

tenho nada, menina feia. só desespero e horror. sim: pulo do alto pra sentir o gosto do sangue no céu da boca. você, porém, prefere brincar de esconde-esconde, cabra-cega. quer fazer da cidade em ruínas sua casa de bonecas.

 

então foda-se, menina feia.

 

escuta, menina feia, tem tudo pra dar errado. tenho hábitos de vôos suicidas. meu poema de concreto voador grita na madrugada anêmica dos heróis acrilíricos e o inferno é o lugar mais próximo do paraíso onde posso chegar. estou dizendo, menina feia, que meu futuro não é brilhante. meus olhos não são brilhantes. meus dentes não são brilhantes. a cabeça do meu pau não é brilhante. nada em mim brilha ou quer estéril luz, menina feia.

 

entenda, menina feia, os cães me farejam o sangue porque desconhecem o nome do medo (e não é porque sou canceriano que a lua vai me fazer de otário, sem chances). ademais, caminho devagar pela escuridão porque tenho febre e dores que causam rupturas. meu amor, aliás, não é relâmpago insípido nem asséptico rosa. antes é azul cortante, nuvem selvagem, osso elétrico, verbo sangrando o ar.

 

não é pálida nem fóssil jardim minha palavra no vento voraz, menina feia.

 

por outro lado, menina feia, você sabe que perdi na rodada do SEJA CANALHA SORRINDO (prometo ganhar na roleta russa, creia), meus navios e arco-íris naufragaram na tarde dos ratos e, contudo, menina feia, - e isso nem eu e nem você entendemos direito -  entro no oxidável mundo das aparências de peito aberto e sigo respirando pássaros mortos nos ambientes neutros, na boa.

 

assim sendo, menina feia, sinceramente, era pra ter entrado de corpo e alma no fogo. era pra ter se aberto e se entregado e chupado gostoso. era pra ter caído em queda livre, ter virado ave do paraíso, menina feia. você não quis ou não conseguiu. fez cu doce. estacionou na beirinha do abismo e ficou ali olhando a paisagem cinza sem  saber que a luz é indolor mas que a claridade cega, amor.



Escrito por jorge mendes às 01h14
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