ao fim da noite
   
 
 

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do corpo-prótese

 

já não há mais corpo. apenas próteses.

a chamada natureza humana desencantou

e é agora só mais um objeto exposto na vitrine

foucault

 

 

o telefone é um objeto do medo. assim como as cortinas, dentro da noite imóvel, são almas penadas que gritam assassinando estrelas.

 

tapetes vampirizam o sol.

 

calendários são túmulos verticais com exuberantes paisagens mórbidas. espelhos de penteadeiras são desejos congelados há dois mil anos antes e há muito desespero e outono danificado nas cadeiras, almofadas e nos trincos das portas.

 

paredes apóiam o teto. tetos tampam o céu.

 

mesinhas de cabeceira transformam sonhos em pó e é por isso que a lua e o fundo do mar não têm nada a ver com as fronhas e os travesseiros.

 

talheres (facas, garfos e mulheres, sobretudo) desejam meu sangue.

 

sofás e janelas e motores a diesel não flutuam mas rangem os dentes.

 

nos dentes aparelhos ortopédicos sorriem cínicos arames farpados.

 

uma morte lenta por obesidade mórbida são todos os chinelos.

 

fones de ouvido apagam o silêncio.

 

gavetas do armário embutido são barcos fantasmas cuja tripulação se embriagou de sereias, pássaros e uísque vagabundo, inutilmente.

 

controles-remotos levam ao onanismo.

 

bibelôs nas estantes são viúvas rancorosas. porta-retratos, relógios de cozinha, mesinhas de centro e sapateiras corroem os ossos, embranquecem os cabelos, causam azia.

 

espíritos malignos com halitose são todos os copos e as toalhas de mesa acumulam migalhas, apodrecem as manhãs.

 

camas e abajures são simplesmente assassinos.

 

colheres e piercings são meninas anoréticas que não produzem luz nem calor. eletrônicos em geral mastigam magnéticas imagens pornográficas enquanto celulares, micros e laptops se alimentam de velocidade estática e ódio.

 

óculos criam fungos e frios desertos panorâmicos.

 

mesas são mulheres católicas.

 

as fruteiras, as gaiolas, os xaxins e os quadros nas paredes são prisões onde cabelos e asas são tingidos de sépia e horror.

 

gargantas sem grito e fúria são as luvas, os sapatos e a louça da sala de jantar.

 

“cabeça pra usar boné.”

 

então, dentro do quarto, sob as águas, na esquina ou na curva da estrada nenhum corpo, porque todo corpo se quebra, se divide, pede abrigo e se dissolve nas sombras.

 

e luzes acessas não curam.

 

cocaína e todo gozo só aliviam segundos.

 

adeus, céu azul.

 



Escrito por jorge mendes às 23h19
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