ao fim da noite
   
 
 

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sobre o amargo do beijo

 

quando você pensar em mim, por favor, não grite

 

quando acaba o amor, viramos pedra. eis aí a forma mais apurada do silêncio

bataille

 

quando morri pela primeira vez me levaram todos os kafka, as chuvas de maio e as canções do tom waits (por ignorância ou piedade deixaram morte a crédito do céline, um entardecer em canoa quebrada e blue girl do lô borges), normal. foi também no dia que morri pela primeira vez - um domingo expelindo sol agridoce por todos os lados - que descobri as 1001 utilidades do medo e dos destilados em geral.

 

depois algumas sereias cantaram no meu ouvido o velho hino do amor aos pedaços.

 

então sobrevivi sobrenadando no medo. aprendi a perder. verdade: a vida é dura quando não se tem todas as peças funcionando dentro da cabeça. fiz a minha parte, contudo.

 

vez ou outra me jogavam um osso.

 

quer dizer, a garota parecia mesmo de porcelana. um bibelôzinho século 15 sobre o piano. logo, precisei de alguma filosofia uspiana de porta de banheiro da fefeleche pra convencer a gracinha a ir devagar com o que estava levando à boca. “passe a língua pela glande!” (os termos precisavam ser rigorosamente científicos. se eu dissesse cabeça do pau, a cinderela poderia ficar chocada), “isso, não morda!”, “beleza!”, eu indicava a operação e tentava dar um ritmo na coisa.

 

assim, quando gozei no oceano profundo dela (e é sempre frio depois do gozo, creia), não cheguei a quebrar nada por dentro. também não lembro de estrelas selvagens nem de gritos e sussurros lúbricos na ventania. tenho vivo apenas o sabor voador dos lábios da bucetinha em chamas. é o suficiente.

 

veja, eu já era um idiota então. recitava neruda diante do espelho. batia punheta ouvindo pink floyd. queria ser eu mesmo, o palhação aqui.

o plano era encontrar uma identidade plausível para os meus atos e a boneca de porcelana possuía alguns passaportes falsos: nariz aquilino voltado pru céu, boquinha anos 20, um pouco de loucura e dor, coisas assim, e isso poderia facilitar minha transição. me fodi, óbvio.

 

primeiro porque não existe identidade, transição, a porra. segundo porque quebrei sim alguma coisa por dentro (e isso só fui saber quando já era tarde demais, como sempre). na verdade, não foi uma quebra: foi um talho. um corte grave naquela região sombria que fica entre a minha cabeça e a sordidez do mundo.

 

sangrei por um tempo, portanto.

 

isto é, eu não estava feliz, esperançoso, malhado, confiante, etc, etc. mas estava morto e isso era seguro. um sistema. algo repetitivo e rotineiro pra se agarrar e ficar girando. consegui dar umas voltas na geringonça. o mecanismo não era complicado. era só sentar e esperar apodrecer. foi o que fiz.

 

com isso, nenhum caos ao desejar bom-dia aos vermes da manhã seguinte. tranqüilidade total no manejo dos talheres (saladas e nenhum envolvimento com a faca, no quilo). um quê de segurança e sedução na sala com as visitas e em cada passo dentro da claridade fria.

 

tudo ok com os travesseiros.

 

depois, fiquei boiando. à deriva. rolando pesado até bater no fundo, até o inevitável mergulho de volta ao bloco de gelo.

 

sendo assim, como um último pedido de silêncio e pedra, por essas e outras, quando você pensar em mim, por favor, não grite.



Escrito por jorge mendes às 03h54
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